Joe Biden: como candidato ‘sem sal’ conseguiu unir partido dividido contra Trump

A convenção democrata que terminou na quinta-feira (20/8) com a oficialização do nome de Joe Biden, 77 anos, como candidato para as eleições presidenciais de novembro, sela também um momento histórico para o partido. Sob a liderança de Biden — mesmo que vista por muitos como pouco entusiasmante —, os democratas mostraram disposição de superar cisões históricas em nome de um objetivo comum: derrotar o republicano Donald Trump, que busca a reeleição.

Ao aceitar o posto de candidato democrata, Joe Biden afirmou que os americanos estão diante de uma escolha entre “a luz” ou “as trevas”. E apelou para o histórico de reconstrução do país após a Grande Depressão (iniciada em 1929) sob o comando de Franklin Roosevelt, para argumentar que “unidos”, os americanos são capazes de superar seus momentos mais difíceis, como os dias atuais.

“Muito embora eu seja um candidato democrata, serei um presidente americano. Vou trabalhar tão duro por aqueles que não me apoiaram quanto farei por aqueles que me apoiaram. Esse é o trabalho de um presidente, representar todos nós, não apenas nossa base ou nosso partido. Este não é um momento partidário. Este deve ser um momento americano”, disse Biden, resumindo a tônica de sua candidatura.

Para provar essa tese, os democratas conseguiram juntar no palco virtual de sua convenção figuras opostas no espectro político. Pediram voto com entusiasmo para Biden tanto o autoproclamado socialista e ex-presidenciável Bernie Sanders — que em 2016 rachou o partido — quanto um republicano tradicional como o ex-governador de Ohio John Kasich.

“Vou trabalhar com progressistas, com moderados e, sim, com conservadores para preservar esta nação de uma ameaça que tantos de nossos heróis lutaram e morreram para derrotar. Este presidente não é apenas uma ameaça à nossa democracia, mas, ao rejeitar a ciência, ele colocou nossas vidas e nossa saúde em perigo”, disse Sanders, ao pedir, na última segunda-feira, que seus apoiadores votassem em Biden. Com uma base de apoio vibrante e numerosa entre jovens — e considerando-se o fato de o voto nos Estados Unidos não ser obrigatório — o embarque de Sanders no projeto Biden era considerado vital para o sucesso da empreitada.

“Muitos de nós estamos profundamente preocupados com o caminho tomado nos últimos quatro anos. Sou um republicano de vida toda, mas esse apego é relegado a segundo plano diante de minha responsabilidade para com o meu país. É por isso que escolhi aparecer nesta convenção. Em tempos normais, isso provavelmente nunca aconteceria, mas estes não são tempos normais”, afirmou Kasich, no evento democrata, em uma mensagem que deve ressoar com eleitores independentes, centristas, e até mesmo com republicanos que não estão satisfeitos com o atual presidente.

Unidos contra Trump

O fato de o partido chegar ao seu segundo confronto com Trump em condição muito diferente da que viveu há 4 anos — quando, profundamente divididos, os democratas oficializaram o nome de Hillary Clinton — resulta de uma somatória de aspectos circunstanciais do país e do partido, além das características históricas e pessoais de Biden.

Os Estados Unidos vivem a maior crise econômica de sua história, com taxas de desemprego em dois dígitos. A pandemia de coronavírus já contaminou mais de 5 milhões e matou 170 mil pessoas no país, os números mais altos do mundo. E a tensão racial levou, no meio do ano, a uma onda de protestos nacionais, cujos manifestantes ainda não deixaram totalmente as ruas mais de dois meses depois.

Em meio a esse cenário, e com o trauma deixado pela derrota de Hillary Clinton há quatro anos para um candidato neófito como Trump, que se beneficiou não apenas do fato de ser um outsider, mas da pouca conexão que os democratas estabeleceram com os eleitores, o partido percebeu que não podia arriscar mais um pleito em disputas fratricidas de poder.

Para o cientista político Thomas Whalen, da Universidade de Boston, a convenção marcou um movimento sem precedentes entre os democratas nos últimos 50 anos, “de uma maturidade impensável quatros ou até mesmo dois anos atrás”. Bem posicionado para se beneficiar disso, Joe Biden, com quem apenas 40% dos democratas se dizem entusiasmados, aceitou incorporar em sua própria plataforma elementos de grupos políticos mais à esquerda.

“Há uma profunda compreensão entre todas as facções democratas de que Trump é uma ameaça existencial para o país. As bases do partido são mais anti-Trump do que pró-Biden. Elas estão dispostas a deixar de lado as principais diferenças — como sobre (a demanda por) um sistema de saúde universal, bandeira de Bernie Sanders e da (congressista) Alexandria Ocasio-Cortez — e cerrar fileiras em torno de Biden para as próximas eleições de novembro. Biden está no lugar certo e na hora certa neste momento tenso da história política americana. Dito de outra forma, ele é um cara de sorte. Na política, muitas vezes a sorte é melhor do que habilidade ou talento individual para ter sucesso nas urnas”, explica Whalen.

Unificador e pacificador

Se não pode receber crédito sozinho por ter unificado seu partido, Biden certamente possui um perfil que facilitou essa agregação.

Apresentado como “unificador” e “pacificador” na convenção, Joe Biden tem sido descrito por democratas menos como um homem bem preparado para o cargo e mais como uma pessoa acessível, empática e capaz de ouvir. Ele não é tido pelos correligionários como um grande formulador de políticas públicas, como são, reconhecidamente, o ex-presidente Barack Obama, Hillary Clinton ou mesmo a senadora Elizabeth Warren, e sempre atuou como um articulador político, em um corpo a corpo pragmático com seus colegas congressistas para aprovar leis de interesse democrata.

Ilustrativo disso é a própria formação acadêmica de Biden. Ele é o primeiro candidato democrata, desde 1984, a não ostentar um diploma de uma universidade da Ivy League — grupo de oito escolas americanas conhecidas tanto pela excelência acadêmica quanto pelo elitismo.

“Joe não é perfeito. E ele seria o primeiro a te dizer isso. Mas não existe um candidato perfeito, nem um presidente perfeito. E encontramos em sua capacidade de aprender e crescer o tipo de humildade e maturidade pelas quais tantos de nós ansiamos agora”, descreveu Michelle Obama em seu discurso de apoio a Biden, no qual ela também disse que Trump “é o presidente errado” para o país.

Michelle preferiu se concentrar no fato de Biden dar seu número de celular para crianças que, como ele, sofrem de gagueira, a mencionar seus feitos na carreira pública, como o esforço para aprovar no Congresso o programa de acesso à saúde conhecido como ObamaCare.

A escolha não é fortuita. Esse é um exemplo de como a campanha democrata pretende traçar um paralelo entre aspectos da trágica história pessoal de Biden e o momento de perdas e incertezas que vivem os Estados Unidos — duramente atingido pela pandemia, que já matou três vezes mais americanos que a guerra do Vietnã e encerrou um período de pleno emprego, o país tenta retomar o caminho de estabilidade e crescimento interrompido em fevereiro.

Biden perdeu a mulher e a filha bebê do casal em um acidente de carro e tomou posse do primeiro de seus seis mandatos como senador, em 1973, do quarto de hospital onde seus outros dois filhos se recuperavam da tragédia.

Quando já era vice presidente, em 2015, ele teve que sepultar seu primogênito, Beau, vitimado por um câncer. “Sei que se confiarmos esta nação a Joe, ele fará por sua família o que fez pela nossa. Juntar-nos e nos tornar completos”, afirmou a professora Jill Biden, com quem o democrata se casou pouco após ficar viúvo, em um discurso de uma sala de aula esvaziada pela pandemia de covid-19.

Em Washington, Biden é conhecido como um político tradicional, do tipo que gosta de fazer o máximo de conexões possíveis com o maior número de pessoas. Circula a anedota de que ele nunca pede nada a ninguém sem ter telefonado ao menos duas vezes para essa pessoa antes, para estabelecer algum grau de proximidade.

A campanha de Biden credita a seu estilo diplomático e seu tino negociador o fato de ter reduzido a enorme fragmentação de candidatos na primária democrata, que chegou a contar com 29 postulantes. Com uma performance fraca no início das primárias, tanto em votos quanto em arrecadação, Biden convenceu, ainda no fim de fevereiro, pré-candidatos moderados, como a senadora Amy Klobuchar e o ex-prefeito Pete Buttigieg, a sair da disputa para fortalecer sua posição.

Com isso, Biden emparedou, ainda em março, seu principal oponente, o esquerdista Sanders. Em 8 de abril, o socialista anunciou a suspensão de sua candidatura, em uma ação bem diferente do que fez em 2016, quando antagonizava com Hillary Clinton e manteve-se na disputa até o início da convenção democrata — quando já estava claro que ele não levaria a nomeação.

Se, há quatro anos, os apoiadores de Sanders chegaram a fazer um protesto em que pediam a prisão de Hillary na convenção partidária, agora, as relações parecem muito mais pacíficas. Parte do crédito é dado ao modo atento com o qual Biden tratou Sanders anos atrás, muito antes de o establishment democrata prestar atenção às ideias — tidas como radicais — do senador por Vermont.

“O relacionamento pessoal de Biden e Bernie Sanders é muito mais forte do que o de Sanders e Hillary Clinton jamais foi. Isso claramente ajudou Biden a obter a indicação mais cedo e começar a construir pontes para outros campos”, afirma William Winecoff, professor de ciência política da Universidade de Indiana.

Força-tarefa à esquerda

Mas a aliança democrata não se formou apenas do anúncio de boas intenções. “Biden demonstrou ter aprendido as lições de 2016, da desilusão dos eleitores de Sanders, que não foram às urnas, e saiu de seu próprio caminho centrista para incorporar algumas das prioridades políticas e perspectivas da ala Sanders/Ocasio-Cortez em sua própria plataforma de campanha”, explica o analista político David Livingston, da consultoria Eurasia Group.

A campanha de Biden criou alguns grupos de força-tarefa em temas como mudanças climáticas, saúde e educação para encontrar pontos em comum entre as ideias de Biden e Sanders. E embora o próprio Sanders continue a dizer que eles discordam sobre a criação de um sistema público de saúde, por exemplo, a agenda mais à esquerda avançou especialmente no tema do meio ambiente, em que as discussões eram lideradas por Ocasio-Cortez.

Como resultado, a campanha de Biden aumentou sua previsão de investimentos para o desenvolvimento de uma economia verde de US$1,7 trilhões para US$ 2 trilhões em 4 anos e passou a endossar a ambiciosa meta de obter 100% da energia do país a partir de fontes limpas e renováveis até 2035.

A mudança tende a favorecer Biden não só com os eleitores mais esquerdistas. A agenda tem se tornado cada vez mais popular em diferentes segmentos da sociedade. Em abril, uma pesquisa do Pew Research Institute mostrou que 60% dos americanos consideram o aquecimento global uma ameaça direta aos Estados Unidos.

“Biden está usando o tema energia e clima para tentar curar algumas das divisões inevitáveis que resultam de uma primária disputada. Implicitamente, a mensagem dele tem sido: ‘Ei, olhe, eu posso ser velho. Sou um pouco antiquado, mas estou aqui para ouvir, aprender, atualizar e modernizar meu pensamento e minhas posições políticas de acordo com o rumo que a economia, a sociedade e a cultura estão tomando’. Ele não disse isso, mas muito do que ele fez, incluindo a força-tarefa, sinalizou isso. Então as pessoas sabem que ele não é um cara supermoderno ou que não foi o mais progressista em toda a sua carreira, mas está aberto a atualizar suas opiniões”, diz Livingston.

Para Winecoff, Biden não só tomou um caminho mais à esquerda do que inicialmente se esperava pelo seu histórico político, como também tem sido capaz de construir sua própria imagem como uma figura de transição no partido. “Biden é visto como um tapa-buraco e um potencial presidente de um único mandato”, diz Winecoff.

Isso explica porque foi mais fácil para que as forças democratas se unissem em torno de uma solução de poder tida como temporária. Homem, branco e idoso, com uma carreira que o aproxima muito mais de republicanos moderados, como o ex-presidenciável John McCain, morto em 2018, do que das margens de seu próprio partido, Biden sinalizou que está atento ao futuro dos democratas e demonstrou isso ao escolher Kamala Harris como sua vice. Mulher, negra e indo-americana, a senadora californiana pode vir a ser a candidata à presidência do partido já em 2024.

Os analistas alertam, no entanto, que se unir para derrotar um inimigo comum em uma batalha com data marcada, como é a eleição, pode ser muito mais fácil do que agir em harmonia em uma eventual administração Biden.

O ceticismo sobre o caráter dessa união, tanto entre analistas quanto no público em geral, ficou evidente com um episódio controverso ocorrido na segunda noite da convenção. Ao anunciar o oponente Sanders como pré-candidato durante a convenção democrata, em gesto cerimonial, Ocasio-Cortez falou em um “movimento de massa” liderado pelo socialista e não mencionou nenhuma vez o nome de Biden.

A confusão foi imediata nas redes sociais, eleitores e veículos de imprensa questionando se as palavras de Ocasio-Cortez representavam uma fratura exposta na coalizão. A congressista foi às redes reafirmar seu apoio a Biden e dizer que apenas cumpriu uma etapa ritualística do processo

“Isso gerou uma enorme quantidade de ódio e críticas ácidas”, lamentou a congressista, que criticou a cobertura de parte da mídia. A reação aponta para o desafio seguinte, caso a coalizão demonstre sucesso em bater Trump. “Espera-se que, se ganhar, Biden forme um time de assessores que espelhe o processo pelo qual suas propostas estão sendo elaboradas. Isso envolveria papéis-chave para vários de seus rivais nas primárias, bem como uma boa quantidade de diversidade demográfica e intelectual. Isso não significa que a presidência de Biden será radical, ele deve atuar para se manter no ponto médio do Partido Democrata, onde sempre esteve”, diz Winecoff.

 

BBC Brasil

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